terça-feira, 5 de maio de 2020

Levantado do chão: a saga de três gerações de camponeses pobres

“O que mais há na terra, é paisagem. Por muito que do resto lhe falte, a paisagem sempre sobrou, abundância que só por milagre infatigável se explica, porquanto a paisagem é sem dúvida anterior ao homem, e apesar disso, de tanto existir, não se acabou ainda. Será porque constantemente muda: tem épocas no ano em que o chão é verde, outras amarelo, e depois castanho, ou negro. E também vermelho, em lugares que é cor de barro ou sangue sangrado. Mas isso depende do que no chão se plantou e cultiva.”

É desta forma que José Saramago inicia o seu romance publicado em 1980. Levantadodo chão conta a saga de três gerações de camponeses da cidade de Alentejo, cidade em Portugal que está entre as regiões mais pobres da Europa como resultado da miséria provocada pelo latifúndio, assim, o romance se apresenta como denúncia da injustiça e violência do poder do Estado, do latifúndio e da Igreja no campo.

Filho e neto de camponeses sem terra, José Saramago cresceu ouvindo as histórias de seu avô Jerônimo que, segundo o escritor, foi um filósofo e grande escritor analfabeto. Somente em sua vida adulta Saramago pode conhecer uma biblioteca que ficava na cidade em que conseguiu seu primeiro emprego como serralheiro mecânico, ao findar o dia de trabalho, o escritor ia até a biblioteca onde passava noites inteiras de modo rotineiro. José Saramago soube reconhecer suas origens como energia para o futuro, Levantado do chão é sobre gente comum e suas angústias, anseios, alegrias e miséria. Pessoas reais que lutam todos os dias por sua sobrevivência, dignidade e liberdade.

“E esta outra gente, quem é, solta e miúda, que veio com a terra, embora não registrada na escritura, almas mortas, ou ainda vivas?”
Como militante ativo do Partido Comunista Português durante a década de 70, Saramago foi um escritor de convicções firmes, tais convicções refletiram em suas obras. Levantado do chão nos apresenta um panorama histórico dos fins da monarquia portuguesa até o advento da República e aponta que, tal como podemos analisar no Brasil, a estrutura fundiária pouquíssimo se alterou, retratada pelos Mau-Tempo, a família camponesa sem terra obrigada a trabalhar para os grandes proprietários de terra por um salário de miséria.

A obra também nos deixa a par da história recente de Portugal ao tratar da Ditadura salazarista nos anos 1920 até a Revolução dos Cravos na década de 1970, que pôs fim ao regime salazarista. Levantado do chão definitivamente é um convite para levantarmos a bandeira da revolução agrária que dará fim ao grande latifúndio mantenedor de relações servis e semi-escravistas.

“É preciso que este bicho da terra seja bicho mesmo, que de manhã some a remela da noite à remela das noites, que o sujo das mãos, das caras, dos sovacos, das virilhas, dos pés, do buraco do corpo, seja o halo glorioso do trabalho no latifúndio, é preciso que o homem esteja abaixo do animal, que esse, para se limpar, lambe-se, é preciso que o homem se degrade para que não respeite a si próprio nem aos seus próximos.”

De: Mayara Vanessa
Estudante de História da UEMA/Centro Histórico São Luís/MA, militante do Coletivo Combate

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