quinta-feira, 28 de maio de 2020

Educação brasileira em meio à pandemia do Covid-19: descasos, desmandos e desigualdades como reflexos da luta de classe

Fato dentro do grave contexto

O sistema capitalista global está passando por mais uma de suas já inumeráveis e inevitáveis crises, aprofundada pela crise sanitária, rapidamente transformada em pandemia mundial. 

A velocidade na transmissão do “corona vírus” (covid-19), a sua rápida conversão em pandemia, devido as altas taxas de contágio, tendo como uma das consequências imediatas o sobrecarregamento e o colapso do sistema de saúde, por conta das milhares de internações, fez com que a maioria absoluta dos países atingidos aderissem ao isolamento social como forma de evitar a propagação da doença. 

Bom lembrar que o quadro só pode se agravar ainda mais devido ao implemento de medidas liberais ou neoliberais por parte dos governos através de planos econômicos nas últimas décadas, fazendo com que parte dos países sequer tenha sistema público de saúde e, em outros tantos, o sistema público foi drasticamente reduzido, sucateado, desmontado ou asfixiado, por medidas destinadas à contenção de recursos para o pagamento da "dívida pública", em cumprimento ao receituário do FMI, do Banco Mundial e organismos congêneres, em detrimento da maioria da população.

Foi, em parte, para ocultar o erro dessa política nefasta que retirou recursos, desaparelhou e precarizou o sistema público de saúde em seu conjunto que se adotou tal medida sanitária, cujo resultado visível foi a interferência direta na vida do povo, com restrições de deslocamentos e tráfegos, expondo-o à doença e ao sofrimento, ao desemprego e ao desamparo, vendo ruir,  da noite para o dia, todas as conquistas alcançadas ao longo de anos de luta e labuta.


Implicou concretamente na diminuição das jornadas de trabalho e da renda, na transferência do trabalho para a casa dos trabalhadores, com o travamento parcial ou completo de alguns setores da economia, sob muito protesto e resistência dos capitalistas que, socorridos pelo governo, aceitaram, sem qualquer escrúpulo, a morte dos trabalhadores, caso fosse a maneira de salvar os lucros.

Em meio à pandemia, os agentes do capitalismo, que respondem pela alcunha de "o mercado", vendo nisso uma oportunidade de ganho, acionaram os seus serviçais, em alguns países como o Brasil, para diminuir ou retirar conquistas, direitos e subtrair ainda mais a renda dos trabalhadores, sem esquecer de destinar aos cofres privados da banca mais de um trilhão de real.

O resultado não custou  a chegar! 

A suspensão de contratos de trabalho, o aumento dos pedidos de seguro-desemprego e, em seguida, as demissões em massa acabaram por agravar ainda mais o quadro  de desigualdade social,  pobreza e miséria que vive a maioria da população brasileira.

Além de servir para mascarar a crise do capitalismo em geral, nos países onde se desenvolve um capitalismo burocrático, atrelado ao latifúndio e ao imperialismo, a extrema desigualdade no acesso à educação de qualidade nunca havia sido exposta como há muito tempo, tornando nítidas as contradições de classe, em particular dentro do meio estudantil.

Como um dos exemplos, não bastasse no Brasil tais desigualdades no acesso à educação, o Estado, através do Ministério da Educação, tem se recusado e/ou oposto mil obstáculos ao adiamento do principal exame de acesso ao ensino superior do país, cabendo uma reflexão aprofundada e análise detida sobre essa situação.

Tal fato prejudica, justamente, os alunos pertencentes à classe trabalhadora, em geral, e os estudantes das escolas públicas, em particular, que não só estudam em escolas sucateadas, como também vão ter o ano letivo, do ponto de vista do calendário escolar, extremamente comprometido, retirando do sistema a responsabilidade sob a justificativa da ocorrência da pandemia.

Vale lembrar que, antes mesmo da pandemia, os estudantes das escolas públicas já estavam jogados à própria sorte pelo sistema que os elegeu como inimigos, com o congelamento de recursos para o setor, inviabilizando sua expansão; a diminuição de verbas para a manutenção de suas atividades anuais, além das rotineiras ameaças de fechamentos e privatizações, comprometendo todo o sistema, do ensino à pesquisa.

Quais as contradições do Enem no Brasil?

Embora o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) tenha sido criado no governo de Fernando Henrique Cardoso, foi exatamente no governo do PT (Lula) que ele se consolidou e ganhou seus traços mais claramente classista.

Se no governo FHC o ENEM era um método de avaliação anual do aprendizado, mensurado a partir do desempenho do aluno, com o objetivo de classificar universidades e assim destinar recursos, numa tentativa disfarçada de privatizar o ensino universitário, no governo do PT, sob a linha da "conciliação de classe", ele se insere dentro de um pacote de medidas governamentais para a área da Educação cuja finalidade era camuflar os antagonismos de classes, no caso, no meio universitário. 

Bom que se resgate, inicialmente, acerca da utilização do ENEM como uma proposta de unificar o concurso vestibular no Brasil, forma anterior de exame de acesso às universidades federais, mecanismo de seleção com diversos defeitos e claras contradições . 

No vestibular, o sistema de avaliação era delegado a cada universidade implementar. Cada universidade forjava o seu próprio método de exame, dispersão que acabou por ajudar e aumentar as distorções no ensino superior e elitizar algumas universidades, uma vez que inibiu e inviabilizou o acesso de certos grupos populacionais brasileiros em relação a determinadas universidades e regiões.

Acrescente-se ainda o fato de que todas as inscrições nos processos seletivos das instituições universitárias eram pagas e, mesmo existindo o direito de isenção, seu exercício era difícil ou inacessível, por conta de inúmeros entraves burocráticos, tudo para restringir ao máximo um direito que já era reconhecido, em legislações internas e internacionais, como direito de acesso universal. 

Todas essas contradições, aumentadas e tornadas visíveis pelo descaso e desmando, ocasionaram uma explícita segregação de classe dentro do meio universitário, em que a regra facilitava e/ou favoreciam que membros das classes abastadas, embora fossem minoria social, ingressassem e fossem a maioria em universidades tidas como instituições públicas.

Dentro desse contexto se inclui o ENEM que se tornou, sob o ministério de Fernando Haddad, no ano de 2009, durante o segundo governo Lula, o seletivo oficial para o ingresso nos institutos e universidades públicas federais (IFES), como parte de uma narrativa de democratizar o acesso ao ensino superior, amenizar as desigualdades (de renda, étnicas e regionais), unificar de forma definitiva os exames de acesso ao ensino superior e diminuir as contradições do chamado vestibular tradicional.

Só dentro da linha de "conciliação de classe" é possível compreender o Enem, cuja propaganda oficial afirmava ter, em alguma medida, tornado acessível a diversos membros das classes dominadas e pouco abastadas o ingresso nas IFES (Universidades e Institutos), além de proporcionar, pela primeira vez, certa mistura regional e étnico-racial, como forma de diminuir, assim, a tensão entre as classes e regiões. 

Mesmo que esse tipo de desigualdade evidencie uma clara divisão de classe de uma sociedade,  a falta de democratização do acesso ao ensino - em particular, para nossa análise, ao ensino superior, ainda não é vista como vinculada à contradição de classe no país, como reflexo da estrutura sobre a qual a sociedade brasileira foi montada, cuja mudança que só será possível com o desmonte radical desse tipo de estrutura social.

Cabe afirmar que o próprio processo seletivo é, por si só, um processo antidemocrático, que apenas mascara a negação de um direito fundamental - o acesso à educação como direito público e universal, não como mercadoria ou oportunidade.

Não passa assim o Enem de uma forma disfarçada de diferenciação, exclusão e estigmatização da maioria da população, além de fortalecer a ideologia burguesa da meritocracia e da concorrência no seio do segmento estudantil,  não servindo para ser mais do que um dos inúmeros mecanismos de apaziguamento temporário, como se viu, da luta de classes.

A quem favorece ocultar a luta de classe?

Destacamos agora a parte menos discutida e não divulgada da tal política de inclusão, parte integrante do mesmo pacote conciliatório - que dá um pouco com uma mão para um e enche a barriga do outro com a outra mão.

Não se pode esquecer que foi com Fernando Haddad no Ministério da Educação que vimos crescer vertiginosamente os programas ProUni e Fies, endividamento público e estudantil disfarçado de "financiamento".

Tornou-se progaganda oficial a facilidade do acesso ao ensino superior, quando na verdade era uma forma nada transparente de beneficiar largamente o ensino privado, em detrimento do ensino público, transferindo para aquele setor uma montanha de recursos públicos nunca antes visto.

Não se pode nunca esquecer que incentivo à educação privatizada implica, por via de consequência, em desmonte do ensino público!

Assim, se por um lado possibilitou o aumento do acesso, por outro, irrigou como nunca o setor privado, oportunizando assim a expansão deste através de um "liberou geral"; incentivou a formação de conglomerados, enriquecendo-os com dinheiro público, e facilitou/estimulou o endividamento estudantil, sob o nome abrandado de "financiamento".

Como qualquer outro governo que tente conciliar o antagonismo inconciliável entre as classes, os governos do PT (Lula/Dilma) deram pouca importância em mudar a raiz do problema, imaginaram que problemas estruturais se resolvem com a mudança das aparências, com a simples "troca de gabinete", conferências ou "marcos regulatórios".

Na verdade essa forma de atuação objetiva, por um lado,  camuflar a luta de classe, torná-la invisível e ocultá-la ao máximo, enquanto por outro desestimula a organização dos trabalhadores, criminaliza suas ações e representações combativas, até infundir no povo a crença de que este não tem outro mecanismo para seus problemas que não sejam as instituições carcomidas, apodrecidas e reacionárias do velho Estado.

Essa linha política de compreensão de mudança só serve para enganar o povo, retirando-o da luta real, fazendo-o acreditar num conto de fadas, numa harmonia social que não existe, sempre resultando em perdas e frustrações, desorganização, desmobilização e desânimo, política para qual os inimigos de classe dos trabalhadores louvam e batem palmas!

Identificar, enfrentar e resolver ao invés de ocultar, conciliar e enganar

Na sua tentativa de resolver, via mecanismo burocrático, uma das injustiças do nosso país - pouca oferta, falta de condições para o acesso ou acesso desigual à educação para todos os brasileiros, essas tentativas apenas escondem e tentam frear o desenvolvimento da luta de classes, deixando os trabalhadores indefesos, inconscientes e desinformados das pretensões dos seus reais inimigos de classe.

Em contraponto, nos governos que não negaram a luta de classes e entenderam-na como um fator não apenas importante, mas como contradição principal,  a forma de acesso às universidades via mecanismo de exclusão foram abolidos e o acesso à educação universalizado.

É o caso, por exemplo, do que ocorreu na URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), em plena guerra civil (1917-1923) quando lançou duas medidas de enorme impacto social no país. 

A primeira, em 1920, consistindo na criação de jardins infantis nos campos e nas cidades, integrados às escolas politécnicas, tornando obrigatória a frequência escolar até os 16 anos de idade, como forma também  de tirar das ruas crianças e adolescentes, uma das inúmeras misérias que ainda assola o Brasil. 

Enquanto no Brasil se leva cerca de 25 anos para duplicar a oferta por vagas, na URSS, em 1941 mais de 2 milhões de crianças estavam nas escolas da URSS, saltando, em 30 anos, para 12 milhões.

A segunda, em 1923, de erradicação do analfabetismo, o que possibilitou, em 1939, alfabetizar quase 90% da população soviética, primeiro país a alcançar a totalidade da população em 1953, programa prioritariamente dirigido às mulheres e aos habitantes da zona rural, camadas mais afetadas na era czarista.

Isso tudo num país devastado por uma guerra civil no intervalo de duas guerras mundiais, com parte significativa do seu território arrasado e milhões de pessoas mortas, tendo ainda que enfrentar guerras de fronteiras e resistir a inúmeros boicotes e bloqueios econômicos.

Como resultado dessas medidas, em pouco tempo, mais de 5 milhões de pessoas na URSS estavam cursando ensino superior, participando de rede de clubes espaciais, desenvolvendo pesquisa de largo alcance social, num tipo de formação integrada, em que se podia estudar junto fotografia e design, por exemplo.

Operários e camponeses com acesso ao conhecimento, seus filhos e filhas com destinos transformados, puderam ajudar na transformação da realidade e ser, quarenta anos após a revolução, em 1957, os pioneiros nas viagens espaciais, colocando o primeiro satélite, o primeiro ser vivo, o primeiro homem e a primeira mulher (1963) no espaço, feitos que mudaram completamente a forma de vida e o desenvolvimento das sociedades.

Transformação que procurou a raiz do problema sem tergiversação, feito que até nos dias atuais fazem com que os países com níveis absolutos de alfabetização e elevados níveis de escolaridade ainda sejam os ex-integrantes da antiga URSS. 

Enquanto isso, por aqui, ainda temos que ouvir o mesmo lenga-lenga nos discursos governamentais, de que  o Estado não tem recursos, não pode e não tem capacidade para sustentar um número muito grande de pessoas em escolas e universidades, etc, etc, além de ver milhões de compatriotas que não sabem ler, nem escrever, entregues à própria sorte e aos desmandos.

Sem contar a guerra que se faz contra os recursos destinados à educação, subtraídos para o enriquecimento do capital e dos seus lacaios, resultando em escolas de taipas, inacabadas, quando não abandonadas e destruídas, com falta de planejamento e de apoio à permanência dos estudantes no ensino, sem contar o confisco dos parcos recursos destinados à pesquisa científica.

No exemplo acima citado, como em outros países socialistas, percebemos sim que é possível todos terem acesso à educação pública, gratuita e de qualidade, da creche à universidade. 

Deve-se escancarar, à vista de todos, que o liberalismo econômico não é só ineficiente para resolver essas questões, como não irá resolver, pois nisso está a sua condição de existência e sua contradição fundamental, uma vez que o seu objetivo, em países como o nosso, é exatamente privatizar, restringir o acesso, gerando desigualdade social, pobreza e miséria para a maioria do povo.

Da mesma forma, como linha de ação, não devemos aceitar nenhuma solução que não enxergue a raiz do problema; que não vá além da simples reivindicação, que não mostre de forma clara e precisa o caminho para sua transformação!

Afirmamos, assim, que o Enem é uma ferramenta do velho Estado, gerido como ferramenta de dominação, então, por si só, ele não pode e não deve existir como política pública. 

Quais as alegações para o não adiamento do Enem em meio a uma pandemia?

No Brasil, o distanciamento/isolamento social começou a ser adotado pelos estados a partir da segunda quinzena de março/2.020. 

Dados da UNESCO mostram que o Brasil é um dos 153 países que decretaram o fechamento das instituições de ensino em todos os estados, em todos os níveis, comprometendo inevitavelmente o calendário escolar, não existindo informações oficiais de como ficará ano letivo. 

Vale ressaltar que em alguns municípios, como os de Minas Gerais, as aulas não foram afetadas apenas pelo isolamento social, mas também pela greve dos professores e pelas intensas chuvas que atingiram o Estado no mês de fevereiro/2020, atrasando assim, o início das aulas, como relata a titular da Secretária de Educação de Belo Horizonte/MG, Angela Dalben.

Claro que diante de um cenário catastrófico, em que o número de pessoas contaminadas cresce de forma exponencial e países perdem vidas diariamente, o medo, o pânico e o caos se instalam de forma generalizada.

No caso do Brasil, além disso, por conta da falta de decisões seguras e investimento público direcionado aos setores sócio-econômicos mais afetados, como forma de  garantir salário, produção, distribuição e abastecimento, deixando a população à mercê da própria sorte.

É claro que nesse cenário, o planejamento anual não poderia continuar o mesmo. 

Por isso, cerca de 80 países, alguns atingidos severamente pela covid-19, suspenderam, adiaram ou cancelaram suas avaliações estudantis, entre eles, Reino Unido, China, Irlanda, Espanha, Coreia, França, Noruega e o Estados Unidos.

O Brasil, já alertado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) que possivelmente seria o novo epicentro da doença, resolveu ir na contramão até da lógica dos países capitalistas, afirmando o titular da pasta da Educação, Abraham Weintraub, em 05/05, que "o Enem não foi feito para corrigir injustiças, mas para selecionar”.

E completou, de forma insensível e indiferente na fala, mas nitidamente fascista no tom e na ação, como forma de argumentar pelo não adiamento do exame: "nem todas os estudantes que realizam as provas têm as mesmas chances".

Isso deixa mais do que claro, sem nenhum disfarce ou manobra, que o intuito é usar do Enem para o que ele foi de fato feito, como ferramenta para restringir o acesso, excludente e de manutenção das distorções sociais, sob o argumento simplório de medir conhecimento.

Cabe lembrar que a China adiou as aulas para junho, bem como as provas para o ingresso na universidade, após analisar e perceber que o país não tinha condição sanitária possível para realizá-las, dada à contaminação pelo vírus ser muito rápida e a aglomeração de pessoas poder colocar o país inteiro em risco novamente.

Quanto ao Enem, qual posição tomar?

Na realidade brasileira, tendo em vista a acelerada propagação do vírus, dada às nossas condições sanitárias e de saneamento, essa também deveria ser uma medida adotada, mas o Ministério da Educação, mesmo com todos os alarmes, permaneceu com o calendário do Enem, como se nada estivesse acontecendo.

Inclusive, note-se, divulgando a data da realização da prova, deixando um clima de apreensão, incerteza, insegurança, num completo descaso para com os estudantes, seus pais e professores, em meio à pandemia.

Questionado sobre tais fatos, o sinistro ministro Weintraub, militante fascista e que já declarou ódio público a Paulo Freire (patrono na Educação brasileira) e tudo o que ele significa,  disse recentemente, como advertência, que o adiamento do Enem pode implicar na perda do ano letivo,  o que demonstra mais uma vez o seu grau de inescrupulosidade.

Assim, ameaças, chantagens e propaganda elitista, como a iniciativa do ministério, de que “não fazer o Enem resultará em menos médicos, enfermeiros etc.”, estão na mesma linha das recomendações de que os estudantes devem estudar de “diferentes formas, pela internet, livros, com a ajuda a distância dos professores”. 

Sugestão, diga-se de passagem, feita para a realidade brasileira, o que mostra desconhecimento ou cinismo mesmo, já que muitos alunos não têm o mesmo leque de opções, com níveis e subníveis de desigualdade. 

Só para informar ao falastrão ministro, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua - Tecnologia da Informação e Comunicação (Pnad Contínua TIC) 2018, divulgada em 29/04/2.020 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), publicada em página oficial de órgão do governo (agenciabrasil.ebc.com.br), mostra que uma em cada quatro pessoas no Brasil não tem acesso à internet. 

Em números totais, isso representa cerca de 46 milhões de brasileiros que não acessam a rede, sendo que nas áreas rurais o índice de pessoas sem acesso é ainda maior que nas cidades, chega a 53,5%, enquanto nas áreas urbanas é 20,6%. 

Eis portanto parte da realidade que o ministro finge desconhecer: milhões de brasileiros privados de ter acesso à informação via internet, enquanto outra grande parte acessam via dispositivos móveis, com acesso diário precário, restrito ou limitado, com preços a comprometer o já combalido orçamento familiar. 

Quanto aos livros, mais uma manifestação da desfaçatez do ministro, pois os alunos da rede pública sequer receberam seus livros didáticos das escolas. 

Na verdade essas falas são intencionais e servem para colocar nas mãos de cada um fazer escolhas, como se existissem opções a serem feitas, transferindo para os estudantes as responsabilidades pelas incompetências do sistema, para que se culpabilizem ou convivam e aceitem, de forma passiva, com a possibilidade de perda do ano letivo, certamente economia de recursos a ser comemorada por essa gente.

O que se deve cobrar, sem nenhuma vacilação, é que cabe à administração pública não só verificar os fatos, mas resolvê-los, com instrumentos e recursos necessários para reverter esse quadro, não se omitindo, nem mesmo transferindo para os estudantes e seus pais a sua irresponsabilidade.

Se o semestre está perdido, pois as aulas foram interrompidas e o fluxo de conteúdos não está na mesma frequência, deve-se exigir da administração pública a resolução do problema, com a apresentação de proposta de planejamento para o setor, com adiamento do Enem sem a perda do ano letivo, com a reorganização deste e sua readequação, uma vez que não se confunde com ano civil. 

Adiamento com todas as vigilâncias necessárias, para não haver nenhum tipo de trapaça por parte desse governo, hábil nessa arte, como jogar para o próximo ano o exame, sem previsão orçamentária, o que certamente criaria problemas na sua execução.

Da mesma forma, não aceitar em nenhuma hipótese a perda do ano letivo, devendo ser feito um programa de recuperação, com a participação dos estudantes e professores, nem se cogitando jogar para os mesmos a responsabilidade pelo acaso ou pelo descaso.

Exigir o adiamento do Enem é um passo, por conta da necessidade e da urgência, proposta que está no campo das reivindicações, a exigir solução imediata, fato que atendido não atingirá a raiz do problema. 

O abismo só terá fim com a expansão do sistema público, maior disponibilidade de recursos para a área, fim da canalização de recursos públicos para rede privada, intensa participação social e abolição dos exames de acesso e/ou vestibulares, para permitir o acesso universal e gratuito.

Qual a intenção da fala do falastrão?

Cabe lembrar ainda que esse tipo de fala do ministro, acima mencionada, mostra claramente que o Estado e a sua corja não se importam com o futuro dos jovens, seguem um planejamento feito antes do isolamento social, de desmoralização das IFES (universidades e institutos) e  consequente desmonte do já precário sistema, objetivando, entre outras coisas, tornar desnivelado e elitizado uma disputa já desigual.

Temos, a todo custo, de combater essas ameças e ações planejadas de desmonte e desmoralização, desde frases fascistas, como a do reacionário ministro, que identifica o espaço que gera conhecimento com espaço da "balbúrdia", ao congelamento das receitas orçamentárias, restrição de recursos e proibição de expansão do sistema.

Pessoas como Weintraub, sem nenhuma identificação com a administração pública, não estão ali à toa, cumprem um função, tem lado e são, declaradamente, inimigas do povo a mando do velho Estado. 

As universidades públicas precisam ser defendidas, ampliadas, integradas ao país como geradores e produtoras de ciência e tecnologia, que assim mesmo o fazem, com toda ação do velho Estado em desestimular, inibir, conter a produção científica nacional, como uma das formas de manter a nossa condição colonial, dependente e subserviente.

Finalizando: de que lado estamos e de que lado estão...

Organizações como a UNE e a UBES, que se dizem voltadas para os estudantes, não passam de serviçais do velho Estado, com discurso oportunista cujo objetivo é enganar o meio estudantil. 

Trazem à pauta #adiaenem, mas nunca irão apontar o caráter excludente dele, pois o tratam como um ganho dos estudantes, um seletivo que democratizou o acesso às universidades. 

Essas organizações caem no erro de idealizar o Enem, fato este que as impede de analisar as contradições existentes nesse processo seletivo, revelando claramente a linha que seguem. 

Se percebem claramente as contradições do sistema e não as denunciam, é por conta de terem sido cooptadas e se tornando pontos de apoio de governos, agindo como subsecretarias de Estado, e, por essa condição, não podem levantar a bandeira pelo fim do exame e do vestibular, pois ainda funcionam como uma ferramenta do Estado, do qual fazem parte e defendem. 

Fica claro que tais movimentos estudantis não podem levar até às últimas consequências os legítimos interesses da grande maioria dos estudantes, porque subordinam-se ao jogo governamental e à pauta eleitoral, subjugaram-se a agenda do velho Estado.

O Enem carrega consigo uma ideologia da meritocracia, usada para legitimar o impedimento, a restrição ou inadmissão do povo ao ensino superior. 

O fim dessa contradição, tornamos a repetir, só será possível quando levar consigo o exame e o vestibular, tornando o acesso universal e gratuito. 

A defesa que deve ser feita é por uma educação verdadeiramente livre e democrática a todos os níveis do ensino, da creche ao ensino superior, assim como nos países que não negaram a luta de classes e resolveram enfrentá-la, com luta e organização do povo.


Assim, propomos:

- Como forma imediata, adiamento do ENEM, com apresentação de proposta clara de sua implementação, com a disponibilidade de recursos orçamentários, caso seja adiado para o próximo ano;

- Não aceitar, de forma alguma, a perda do ano letivo 2.020, reestruturando-o para que se adeque à nova realidade brasileira pós-pandemia;

- Lutar, com todas as forças, pela universalização do ensino, com aporte de recursos suficientes e necessários para o acesso de todos, com investimentos na pesquisa científica como forma de dar uma contribuição para a soberania do país;

- Lutar pelo fim de exame de admissão ao ensino superior, tornando o acesso à educação um direito universal e gratuito, que não pode de forma alguma ser tratado como mercadoria;

- Denunciar de forma clara todas as organizações pelegas, comprometidas, cooptadas e financiadas pelo velho Estado, com a função de desorganizar o povo,  desinformar dos seus direitos, dividir e enfraquecer a luta social no país.

Assina 

COMBATE- Coletivo Marxista de Base de Trabalhadores e Estudantes Revolucionários

5 comentários:

  1. 👏🏼👏🏼👏🏼✊🏼

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  3. "Organizações como a UNE e a UBES, que se dizem voltadas para os estudantes, não passam de serviçais do velho Estado, com discurso oportunista cujo objetivo é enganar o meio estudantil."
    Não tem como não concordar. Excelente texto galera.

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